Primeira lição
Narro a seguir, o que encontrei no folheto da Missa do dia (1/07/2007) [Paróquia de Nossa Senhora das Dores], comemoração de São Pedro, São Paulo e do dia do Papa. Na última página, há uma seção "Para sua Reflexão" que traz um texto surpreendente. Reproduzo a primeira parte e os absurdos que ela contém:
"Pedro e Paulo representam duas dimensões da vocação apostólica, diferentes mas complementares. As duas foram necessárias, para que pudéssemos comemorar hoje os fundadores da Igreja universal. Esta complementaridade dos carismas de Pedro e de Paulo continua atual na Igreja hoje: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária. Pode até provocar tensões, por exemplo, uma teologia ‘romana’ versus uma teologia latino-americana. Mas é uma tensão fecunda."
Cabem aqui várias observações. A primeira terá de ser sobre a malícia do texto. Ele declara, primeiramente que há uma teologia regional, rebaixando terrivelmente todo o edifício desta Ciência Divina (veja a segunda lição abaixo). Depois, diz que a Igreja da América Latina se opõe (uma VERSUS a outra) à Roma. Se isso não é apostasia, eu não sei o que seja ... Além disso, compara essa discordância entre a Igreja daqui e a de Roma (como se houvesse várias Igrejas e não só a de Cristo) com a tensão entre Pedro e Paulo, que versava sobre a evangelização dos judeus e a dos gentios. Quem estaria do lado de Paulo e quem estaria do lado de Pedro? Qual seria a “teologia dos gentios” e qual a “teologia dos judeus”.O objetivo do texto é, claramente, preparar o caminho para um eventual confronto com a Santa Sé sobre o Motu Próprio. A dupla linguagem e a fingida delicadeza esconde a raça de víboras atuante e muito viva. A seguir, outro texto dominical, esclarece ainda mais a situação.
Segunda lição
O texto que comento abaixo aparece na última página do semanário litúrgico-catequético O Domingo, de 29-7-2007, sob o título “V Conferência do CELAM: 14. Temas da Teologia da Libertação”. O autor do texto é Pe. Antônio Manzatto.
Comento o texto, parágrafo por parágrafo.
“O trabalho da teologia da libertação é um trabalho teológico, isto é, o de pensar racionalmente a fé com base no contexto em que ela se insere. Marcada pela situação latino-americana e pela racionalidade, a teologia da libertação desenvolve de maneira criativa os principais temas do universo teológico e, assim, contribui para o desenvolvimento da Igreja, da teologia e da sociedade.”
Há no texto uma definição de teologia: “pensar racionalmente a fé com base no contexto em que ela se insere”. Como não sou teólogo, recorro a alguém que entende do assunto muito mais que eu e o Pe. Manzatto. Vamos ver o que tem a dizer Santo Tomás de Aquino sobre o assunto. A Suma Teológica[1], livro que o santo escreveu para “expor o que se refere à religião cristã do modo mais apropriado à formação dos iniciantes”, ataca logo de início a questão da Doutrina Sagrada (como Santo Tomás se referia à Teologia), o que ela é e qual o seu alcance. Nada como tomar um livro para “iniciantes” para aprender algo fundamental. No artigo 7 da Questão 1 da Suma, santo Tomás analisa se Deus é o sujeito dessa ciência (Doutrina Sagrada). Duas objeções são apresentadas: 1) Toda a ciência, segundo os Primeiros Analíticos de Aristóteles, pressupõe o conhecimento de seu sujeito. “Como, segundo João Damasceno ‘é-nos impossível dizer de Deus o que ele é’, logo, Deus não é o sujeito desta ciência.”; 2) Pela multiplicidade de coisas de que trata a Sagrada Escritura, e o fato de que “tudo que se trata numa ciência está compreendido em seu sujeito,” assim, Deus não é o sujeito desta ciência. Depois das objeções, sempre há duas partes na argumentação tomista: o “sed contra”, em sentido contrário, e o “respondeo”, respondo. Ao final do “respondeo” Tomás de Aquino refuta as duas objeções iniciais. Vamos ao texto.
“EM SENTIDO CONTRÁRIO, o sujeito de uma ciência é aquilo de que se fala nessa ciência. Ora, na ciência sagrada fala-se de Deus: daí seu nome teologia, discurso sobre Deus. Logo, Deus é o sujeito dessa ciência.
“RESPONDO. Deus é o sujeito desta ciência. Entre o sujeito de uma ciência e a própria ciência, existe a mesma relação que entre o objeto e uma potência ou um habitus. Ora, designa-se propriamente como objeto de uma potência ou de um habitus aquilo sob cuja razão todas as coisas se referem a esta potência ou a este habitus. Por exemplo: o homem e a pedra se referem à vista como coloridos; uma vez que a cor é o objeto próprio da vista. Ora, na doutrina sagrada, tudo é tratado sob a razão de Deus, ou porque se trata do próprio Deus ou de algo que a Ele se refere como o seu princípio ou a seu fim. Segue-se então que Deus é verdadeiramente o sujeito desta ciência. – O que aliás também se manifesta pelos princípios desta ciência: os artigos de fé, que se referem a Deus. Ora, o sujeito dos princípios e da totalidade da ciência é o mesmo, pois a ciência está contida virtualmente em seus princípios.
“Alguns, no entanto, considerando as coisas de que trata esta ciência, e não a razão sob a qual as examina, indicaram seu sujeito de modo diferente. Fala de ‘coisas’ e de ‘sinais’; ou ‘das obras da reparação’, ou do ‘Cristo total’, isto é, a cabeça e os membros. Tudo isso é tratado nesta ciência, mas sempre com relação a Deus.
“QUANTO AO 1º [primeira objeção], portanto, deve-se dizer que embora não possamos saber de Deus quem Ele é; contudo, nesta doutrina, utilizamos, em vez de uma definição para tratar do que se refere a Deus, os efeitos que Ele produz na ordem da natureza ou da graça. Assim como em certas ciências filosóficas se demonstram verdades relativas a uma causa a partir de seus efeitos, assumindo o efeito em lugar da definição dessa causa.
“QUANTO AO 2º, deve-se afirmar que tudo o mais de que esta doutrina sagrada trata está compreendido no próprio Deus; não como partes, espécies ou acidentes, mas como a Ele se ordenando de algum modo.”
Vê-se então que falar de uma teologia “dependente do contexto em que ela se insere” é o mesmo, para Santo Tomás, que falar de uma Física ou Química, dependente do contexto em que elas se inserem. Assim, teologia da libertação é como uma Física latino-americana ou como uma Medicina francesa. Como se os artigos de fé, que são os princípios dessa Ciência, tivessem de ser climatizados toda vez que fossem colocados em prática. Como se “os efeitos que Ele produz na ordem da natureza ou da graça” tivessem alguma dependência econômica, geográfica ou política.
“[Na teologia da libertação] Deus é compreendido como o defensor e protetor dos pobres, identificando-se com eles, e não com o poder estabelecido e repressor. Sua vontade é o estabelecimento do direito e da justiça no mundo, e não o simples desenvolvimento do culto. Cristo, o seu enviado, compreendido na perspectiva da prática de Jesus de Nazaré, é o libertador dos pobres porque instaura o reino de Deus, o governo de Deus, segundo os mesmos princípios do direito e da justiça.”
É um truque conhecido da teologia da libertação a confusão proposital entre o pobre e o pecador. Para essa “teologia” Jesus veio nos salvar da pobreza e não nos redimir do pecado. Ela faz isso para conseguir a impossível mistura do cristianismo com o marxismo. Além disso, a idéia de que Jesus, com sua vinda, instaura o reino de Deus neste mundo é, no mínimo, panteísmo. É claro que o reino de Deus não é deste mundo e é claro que ele não é para todos. No evangelho de João, no capítulo 3, vemos nos versículos de 3 a 5: "Jesus replicou-lhe: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus. Nicodemos perguntou-lhe: Como pode um homem renascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer pela segunda vez? Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus. "
Parece que Pe. Manzatto ou não leu ou já se esqueceu do capítulo 3 do livro do Gênesis. Toda a utopia do paraíso terrestre é desfeita por Deus. Disse Deus a Adão: “Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar.”
Somos seres caídos e nossa Queda tem uma espantosa conseqüência prática. Tudo que fizermos por aqui será imperfeito e muitíssimo difícil. Padre, espero que o sr. não considere isso somente uma metáfora.
“A Igreja, por sua vez, continuadora da missão de Jesus, assumindo a opção preferencial pelos pobres, trabalha para o estabelecimento da comunhão entre todos os seres humanos e deles com Deus, formando o ambiente comunitário que é sinal do reino em que todos são irmãos, restaurados na dignidade humana de filhos e filhas de Deus.”
Algumas verdades e uma mentira. Nem todos serão filhos de Deus. Esse é o velho erro, tantas vezes denunciado, de entender que o sangue de Cristo foi derramado pela salvação de todos e não de muitos (pro multis). [QUI POR VOBIS ET PRO MULTIS EFFUNDETUR IN REMISSONEM PECCATORUM]. Aliás, o papa já mandou se traduzir “pro multis” como “por muitos” na Oração Eucarística (ler aqui)
“A vida concreta das pessoas – incluindo aquilo que diz respeito à organização do mundo – é vista como caminho para Deus. A luta contra o mal passa, por um lado, pela solidariedade para com os sofredores e, por outro, pela superação do pecado, que não é apenas individual, mas também estrutural. Por isso a conversão do coração não é suficiente para o estabelecimento do mundo novo, mas é necessário igualmente a conversão das estruturas sociais. A luta pela justiça – também em seus desdobramentos políticos – é compreendida como compromisso de superação do pecado para a instauração do mundo novo: a sociedade fraterna e solidária será sinal do reino definitivo.”
Aqui o texto chega ao seu final, desnudando todo o blá-blá-blá inicial. Esses “teólogos” de meia tigela querem mesmo é tomar o poder temporal. Conversão de estruturas? Pecado institucional? Será esta a tal Igreja santa e pecadora? Esses teólogos da libertação são todos marxistas enrustidos e maliciosos. Reino definitivo? Aqui, na terra? Reino imanente de Deus? Só se entendermos a Queda do Paraíso como metáfora sem conseqüências práticas.
Essa baboseira está longe da Tradição Católica e é por isso que esses lobos estão uivando contra Bento XVI. Vade retro satanás!
Para terminar, nada como citar o Papa Bento XVI, que na Encíclica SPE SALVI, recentemente publicada, que explica direitinho, para quem quiser entender, como o cristianismo muda o mundo, em sentido autêntico (as ênfases são minhas).
“O cristianismo não tinha trazido uma mensagem sócio-revolucionária semelhante à de Espártaco que tinha fracassado após lutas cruentas. Jesus não era Espártaco, não era um guerreiro em luta por uma libertação política, como Barrabás ou Bar-Kochba. Aquilo que Jesus – Ele mesmo morto na cruz – tinha trazido era algo de totalmente distinto: o encontro com o Senhor de todos os senhores, o encontro com o Deus vivo e, deste modo, o encontro com uma esperança que era mais forte do que os sofrimentos da escravatura e, por isso mesmo, transformava a partir de dentro a vida e o mundo. A novidade do que tinha acontecido revela-se, com a máxima evidência, na Carta de São Paulo a Filémon. Trata-se de uma carta, muito pessoal, que Paulo escreve no cárcere e entrega ao escravo fugitivo Onésimo para o seu patrão – precisamente Filémon. É verdade, Paulo envia de novo o escravo para o seu patrão, de quem tinha fugido, e fá-lo não impondo, mas suplicando: « Venho pedir-te por Onésimo, meu filho, que gerei na prisão [...]. De novo to enviei e tu torna a recebê-lo, como às minhas entranhas [...]. Talvez ele se tenha apartado de ti por algum tempo, para que tu o recobrasses para sempre, não já como escravo, mas, em vez de escravo, como irmão muito amado » (Flm 10-16). Os homens que, segundo o próprio estado civil, se relacionam entre si como patrões e escravos, quando se tornaram membros da única Igreja passaram as ser entre si irmãos e irmãs – assim se tratavam os cristãos mutuamente. Em virtude do Baptismo, tinham sido regenerados, tinham bebido do mesmo Espírito e recebiam conjuntamente, um ao lado do outro, o Corpo do Senhor. Apesar de as estruturas externas permanecerem as mesmas, isto transformava a sociedade a partir de dentro. Se a Carta aos Hebreus diz que os cristãos não têm aqui neste mundo uma morada permanente, mas procuram a futura (cf. Heb 11, 13-14; Fil 3,20), isto não significa de modo algum adiar para uma perspectiva futura: a sociedade presente é reconhecida pelos cristãos como uma sociedade imprópria; eles pertencem a uma sociedade nova, rumo à qual caminham e que, na sua peregrinação, é antecipada.”
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[1] Uso aqui a tradução da Suma publicada pelas Edições Loyola, vol. 1, 2001.
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