sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A falsa idéia do " novo pentecostes" que pregam os que se dizem "carismáticos"

"Novo Pentecostes"

É a última espetacular novidade religiosa que se espalha com grande sucesso no mundo inteiro. Num recorte recente de "Le Monde" lemos a notícia desse movimento cujo sucesso se contrapõe, na pena de Henri Fesquet, "ao declínio das grandes Igrejas" mais ou menos institucionalizadas. Esse movimento de origem protestante, nascido antes do século, cresceu agora rapidamente. O número de "Assembléias de Deus" que era de 264 em 1963 ultrapassa o número de 400 em 1972. Calcula-se em dez milhões o número de praticantes no mundo inteiro", diz "Le Monde"; e como era de esperar anuncia que o movimento já entusiasmou o mundo católico onde ganha o nome de "renovação carismática" e até reclama o mais ousado título de "novo pentecostes".
   
Em Junho reuniu-se na Universidade Notre Dame, nos Estados Unidos, um "congresso de renovação carismática" com o comparecimento de 25.000 participantes entre os quais figuravam muitos padres, Bispos, e o Cardeal Suhenens, Primaz da Bélgica.
   
Que dizem de si mesmos esses católicos empenhados em tal movimento? Várias publicações, entre as quais destaco a do jovem casal americano Kevin e Dorothy Ranaghan, num livro traduzido em francês com o título "Le Retour de l'Esprit", apresentam o movimento pura e simplesmente como uma descontinuidade explosiva surgida na História do Cristianismo e produzida, nem mais nem menos, por uma nova descida do Espírito Santo sobre os milhares de adeptos que recebem, por imposição das mãos de outros, o "batismo do Espírito" e subitamente se convertem, mudam de vida, passam da mais profunda depressão à mais jubilosa exaltação, e começam a "falar em línguas", como os cristãos da Igreja nascente, e como os apóstolos no dia de Pentecostes (At 2, 1)
  
Uma as características do estado de espírito produzido nas assembléias carismáticas é a predominância da exteriorização sobre a interiorização, e a marcada emotividade que leva os adeptos a sentirem a presença do Espírito Santo, e a declararem essa convicção com uma espontaneidade — cada um contando sua experiência própria — que se liberta de qualquer compromisso de submissão à aprovação da Igreja.
  
Até aqui o nosso espanto não foi excessivo porque este fim de século e o mundo católico dito "progressista" já nos saturaram de extravagâncias, e já nos embotaram a manifestação do espanto. A nossa preocupação começou a ganhar dimensões de alarme quando vimos que o prudente hebdomadário "L'Homme Nouveau", dirigido por Marcel Clement, enviou 7 representantes ao Congresso de "renovação carismática" na Universidade Notre Dame, e que o próprio Marcel Clement, no seu editorial de 1o. de Julho, não hesita em falar de "novo Pentecostes" e de fazer este estranho pronunciamento:
   
"É uma realidade de Igreja. Equilibrada, serena, poderosa. Não se trata de misticismo exaltado. É verdadeiramente o Espírito Santo que os invade e os faz caminhar muito depressa até à única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo."
   
A nós nos parece que depressa demais pronunciou-se o Prof. Marcel Clement, como também nos parece incompreensível que se diga "cheminement très vite jusqu'à la seule et veritable Église de Jesus Christ" de pessoas já nela inseridas pelos sacramentos.
  
Prevemos o caminho de uma luta mais difícil do que as outras que até agora tivemos de enfrentar porque todos terão pressa excessiva de marcar pontos positivos num movimento em que os rapazes e as moças só dizem que querem rezar em "comunidade carismática", porque receberam do próprio Espírito Santo, num novo Pentecostes, dons maravilhosos que os tiraram dos mais profundos abismos e os elevam à mais pura alegria. Quem quererá cobrir-se do negrume de todas as antipatias para enfrentar tão maravilhosa transformação do mundo com um mínimo de reserva ou de exigência?
  
Para encaminhar adequadamente a questão, amigo leitor, começo por lhe lembrar alguns títulos que nos dão direitos a certas exigências. Somos um povo que há 2 mil anos segue a pista de um Deus flagelado; pertencemos à forte raça daqueles mártires que deram o sangue para testemunhar a verdadeira Religião e para resistir a todas as fraudes; descendemos também daqueles outros que silenciaram nos mosteiros os seus próprios sentimentos e as suas próprias emoções para deixar que só o Espírito de Deus falasse por eles. Pertencemos a um Povo ainda mais antigo que ouviu do próprio Deus o trovão de uma identidade absoluta:
  
"Eu sou aquele que sou", e o preceito da mais inquebrantável intolerância: "não terás outro deus diante de minha face".
  
Tudo isto, amigo leitor, nos inclina a uma profunda aversão por tudo que pareça equívoco, e que, em matéria de Religião, mais manifeste as turbulências da pobre alma humana torturada por um mundo encandecido do que as grandezas de Deus manifestas pelos Apóstolos no dia do único e verdadeiro Pentecostes.
  
Logo a seguir tentarei expor as razões que me levam a ver nesse movimento uma nova feição da "revolução" que quer por vários processos destruir a Igreja.
  
Aqui trago apenas os títulos que me dão o direito de exprimir tais reservas, e que me lembram o dever de as exprimir. Pecador e inútil servidor, pertenço todavia àquela raça exigente. Sou homem de Igreja que só quer nela viver e nela morrer.
  
Para comparar o movimento chamado "pentecostismo" com a Igreja de Jesus Cristo, comecemos por comparar a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos, no dia de Pentecostes ao "novo pentecostes" que desce sobre cada um dos 25 mil membros do encontro realizado na Universidade Notre Dame (USA).
  
Há fenômenos semelhantes, como a "glossolalia" ou língua estranha falada pelos crentes do Cristianismo no primeiro século, pelos Apóstolos no dia de Pentecostes, e hoje pela multidão dos pentecostistas. Mas a semelhança termina quando ponderamos que Pentecostes foi, para a Igreja nascente, não uma explosão de manifestações espontâneas e multiplicadas, mas, ao contrário, um atingimento de maturidade e de esplendor de ordem. Foi mais uma cristalização eclesial do que uma explosão carismática. Diríamos até que esse grande dia da Confirmação da Igreja vinha pôr termo à anarquia ou à dispersão informe dos primeiros tempos. Assinalemos que, em Pentecostes, com a evidência das línguas de fogo, a descida do Espírito Santo se fazia sobre a Hierarquia para bem marcar o caráter da Igreja Católica. E as "línguas" que também os Apóstolos nesse dia falaram, usando o dom das línguas que S. Paulo não reprova mas não estimula? Ora, esse ponto de semelhança é na verdade um ponto de oposição porque, enquanto os "pentecostistas" de hoje falam línguas que ninguém entende, nem eles mesmos, os Apóstolos falavam uma "língua que todos os vários estrangeiros presentes ouviram e entenderam como a própria". Torna-se evidente que o Espírito Santo, nesse dia, usou o mesmo dom para exprimir a "unidade de língua" da Igreja e a sua destinação universal. Formalmente, essa "unidade de língua" significa "unidade de doutrina", mas também pode significar a real unidade de língua que a Igreja teria quando recebesse seu o cunho Romano e portanto latino.
  
Vê-se assim que o "novo pentecostes" é dispersador quando o verdadeiro Pentecostes foi congraçador; que o moderno fenômeno é anarquista onde o autêntico é ordenador e hierárquico; que o moderno fenômeno se traduz em manifestações emotivas diversas e mais ou menos chocantes, enquanto o verdadeiro Pentecostes se arremata por um discurso de Pedro que imprime ao mistério pentecostal todo o seu sentido de unidade eclesial. É especialmente digno de nota o arremate do discurso de Pedro e do capítulo II dos "Atos".
  
Vale a pena comparar esses textos sagrados com a narração de Irling Shelton, uma das representantes de "L'Homme Nouveau" no congresso de Notre Dame:
  
"A oração perde seu ritualismo, seu formalismo, sua rotina." (Por que rotina?) Sem rejeitar completamente a oração ritual (...) a tônica é posta na espontaneidade (...)  "a expressão dessa efusão anterior pode então se acompanhar de movimentos da sensibilidade. Cantam, riem, choram, batem as mãos, prosternam-se no chão ou elevam os braços (...) Essas manifestações incontroladas da emotividade podem degenerar em atitudes grotescas e até em histeria de grupo. Mas quando o líder (?) controla bem seu grupo de orações, e sua emotividade, as manifestações sensíveis da efusão do Espírito poderão aquecer os corações e servir de edificação para todos".
  
Chamo a atenção do leitor católico alfabetizado na boa doutrina para a sem-cerimônia com que a autora dessas linhas atribui tais efusões ao Espírito, em vez de atribuí-las à Carne que costuma opor às obras do Espírito esse tipo de exteriorização. Na sadia espiritualidade traçada na Igreja pelos santos doutores aprendemos que os dons do Espírito Santo são recebidos por todos desde o seu batismo, e sabemos também que a espontaneidade sobrenatural é o chamado "modo dos dons" que opera nas almas longamente trabalhadas, arduamente purgadas. Há uma espontaneidade animal, sensível que precede a maturidade e a espiritualização. Qualquer criança a possui. Mas a espontaneidade dos dons é uma longa conquista que só os grandes santos atingem através da noite dos sentidos e da subida do Carmelo.
  
Estas poucas considerações tecidas no plano da teologia mística servem para mostrar que não há nada mais diverso e distante da verdadeira espontaneidade dos santos do que essa dos novos carismáticos.
  
Essas e outras notas do movimento chamado "Pentecostismo" mostram, a quem conheça os rudimentos da sagrada doutrina, que se trata de mais uma subversão contra a Igreja, disfarçada na falsa sublimidade de manifestações temerariamente atribuídas ao Espírito Santo. Explicam-se talvez pela extrema miséria a que chegou esta infortunada geração condenada às oscilações vertiginosas que vão da mais profunda depressão à mais delirante exaltação. Dá pena. Sim, dá-nos uma imensa tristeza esse quadro — mais esse! — de uma geração que se precipita na degradação dos mais altos dons naturais e sobrenaturais com uma espécie de irresponsabilidade, de subinocência que nos leva à vertiginosa indagação sobre a origem desse mal. Quem será então o culpado do rapto de crianças? Quem serão os culpados da perversão de toda essa geração dos que já não sabem de que espírito são? Deverei procurar entranhas de misericórdia para não ver culpas nos erros e nas quedas? Não seriam antes entranhas de indiferença que de bondade?
  
Ah! Se pudéssemos deixar os "pentecostistas" fazerem a grande antepenúltima asneira do século! Se pudéssemos apenas suspirar e lamentar o misterioso consentimento divino! O dia correria mais doce e o crepúsculo da vida teria a suavidade das tardes em que o Céu e a Terra parecem festejar o feliz amadurecimento de um dia do mundo. Mas que contas prestaria eu a Quem me pôs esta pena na mão e esse papel estendido sobre a mesa?
 
(Revista "Resistência", 15 de Janeiro de 1974) 

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Lições das missas dominicais pós concílio Vaticano II .

Primeira lição
Narro a seguir, o que encontrei no folheto da Missa do dia (1/07/2007) [Paróquia de Nossa Senhora das Dores], comemoração de São Pedro, São Paulo e do dia do Papa. Na última página, há uma seção "Para sua Reflexão" que traz um texto surpreendente. Reproduzo a primeira parte e os absurdos que ela contém:

"Pedro e Paulo representam duas dimensões da vocação apostólica, diferentes mas complementares. As duas foram necessárias, para que pudéssemos comemorar hoje os fundadores da Igreja universal. Esta complementaridade dos carismas de Pedro e de Paulo continua atual na Igreja hoje: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária. Pode até provocar tensões, por exemplo, uma teologia ‘romana’ versus uma teologia latino-americana. Mas é uma tensão fecunda."
Cabem aqui várias observações. A primeira terá de ser sobre a malícia do texto. Ele declara, primeiramente que há uma teologia regional, rebaixando terrivelmente todo o edifício desta Ciência Divina (veja a segunda lição abaixo). Depois, diz que a Igreja da América Latina se opõe (uma VERSUS a outra) à Roma. Se isso não é apostasia, eu não sei o que seja ... Além disso, compara essa discordância entre a Igreja daqui e a de Roma (como se houvesse várias Igrejas e não só a de Cristo) com a tensão entre Pedro e Paulo, que versava sobre a evangelização dos judeus e a dos gentios. Quem estaria do lado de Paulo e quem estaria do lado de Pedro? Qual seria a “teologia dos gentios” e qual a “teologia dos judeus”.O objetivo do texto é, claramente, preparar o caminho para um eventual confronto com a Santa Sé sobre o Motu Próprio. A dupla linguagem e a fingida delicadeza esconde a raça de víboras atuante e muito viva. A seguir, outro texto dominical, esclarece ainda mais a situação.


Segunda lição

O texto que comento abaixo aparece na última página do semanário litúrgico-catequético O Domingo, de 29-7-2007, sob o título “V Conferência do CELAM: 14. Temas da Teologia da Libertação”. O autor do texto é Pe. Antônio Manzatto.

Comento o texto, parágrafo por parágrafo.

“O trabalho da teologia da libertação é um trabalho teológico, isto é, o de pensar racionalmente a fé com base no contexto em que ela se insere. Marcada pela situação latino-americana e pela racionalidade, a teologia da libertação desenvolve de maneira criativa os principais temas do universo teológico e, assim, contribui para o desenvolvimento da Igreja, da teologia e da sociedade.”
Há no texto uma definição de teologia: “pensar racionalmente a fé com base no contexto em que ela se insere”. Como não sou teólogo, recorro a alguém que entende do assunto muito mais que eu e o Pe. Manzatto. Vamos ver o que tem a dizer Santo Tomás de Aquino sobre o assunto. A Suma Teológica[1], livro que o santo escreveu para “expor o que se refere à religião cristã do modo mais apropriado à formação dos iniciantes”, ataca logo de início a questão da Doutrina Sagrada (como Santo Tomás se referia à Teologia), o que ela é e qual o seu alcance. Nada como tomar um livro para “iniciantes” para aprender algo fundamental. No artigo 7 da Questão 1 da Suma, santo Tomás analisa se Deus é o sujeito dessa ciência (Doutrina Sagrada). Duas objeções são apresentadas: 1) Toda a ciência, segundo os Primeiros Analíticos de Aristóteles, pressupõe o conhecimento de seu sujeito. “Como, segundo João Damasceno ‘é-nos impossível dizer de Deus o que ele é’, logo, Deus não é o sujeito desta ciência.”; 2) Pela multiplicidade de coisas de que trata a Sagrada Escritura, e o fato de que “tudo que se trata numa ciência está compreendido em seu sujeito,” assim, Deus não é o sujeito desta ciência. Depois das objeções, sempre há duas partes na argumentação tomista: o “sed contra”, em sentido contrário, e o “respondeo”, respondo. Ao final do “respondeo” Tomás de Aquino refuta as duas objeções iniciais. Vamos ao texto.

“EM SENTIDO CONTRÁRIO, o sujeito de uma ciência é aquilo de que se fala nessa ciência. Ora, na ciência sagrada fala-se de Deus: daí seu nome teologia, discurso sobre Deus. Logo, Deus é o sujeito dessa ciência.

“RESPONDO. Deus é o sujeito desta ciência. Entre o sujeito de uma ciência e a própria ciência, existe a mesma relação que entre o objeto e uma potência ou um habitus. Ora, designa-se propriamente como objeto de uma potência ou de um habitus aquilo sob cuja razão todas as coisas se referem a esta potência ou a este habitus. Por exemplo: o homem e a pedra se referem à vista como coloridos; uma vez que a cor é o objeto próprio da vista. Ora, na doutrina sagrada, tudo é tratado sob a razão de Deus, ou porque se trata do próprio Deus ou de algo que a Ele se refere como o seu princípio ou a seu fim. Segue-se então que Deus é verdadeiramente o sujeito desta ciência. – O que aliás também se manifesta pelos princípios desta ciência: os artigos de fé, que se referem a Deus. Ora, o sujeito dos princípios e da totalidade da ciência é o mesmo, pois a ciência está contida virtualmente em seus princípios.

“Alguns, no entanto, considerando as coisas de que trata esta ciência, e não a razão sob a qual as examina, indicaram seu sujeito de modo diferente. Fala de ‘coisas’ e de ‘sinais’; ou ‘das obras da reparação’, ou do ‘Cristo total’, isto é, a cabeça e os membros. Tudo isso é tratado nesta ciência, mas sempre com relação a Deus.

“QUANTO AO 1º [primeira objeção], portanto, deve-se dizer que embora não possamos saber de Deus quem Ele é; contudo, nesta doutrina, utilizamos, em vez de uma definição para tratar do que se refere a Deus, os efeitos que Ele produz na ordem da natureza ou da graça. Assim como em certas ciências filosóficas se demonstram verdades relativas a uma causa a partir de seus efeitos, assumindo o efeito em lugar da definição dessa causa.

“QUANTO AO 2º, deve-se afirmar que tudo o mais de que esta doutrina sagrada trata está compreendido no próprio Deus; não como partes, espécies ou acidentes, mas como a Ele se ordenando de algum modo.”

Vê-se então que falar de uma teologia “dependente do contexto em que ela se insere” é o mesmo, para Santo Tomás, que falar de uma Física ou Química, dependente do contexto em que elas se inserem. Assim, teologia da libertação é como uma Física latino-americana ou como uma Medicina francesa. Como se os artigos de fé, que são os princípios dessa Ciência, tivessem de ser climatizados toda vez que fossem colocados em prática. Como se “os efeitos que Ele produz na ordem da natureza ou da graça” tivessem alguma dependência econômica, geográfica ou política.

“[Na teologia da libertação] Deus é compreendido como o defensor e protetor dos pobres, identificando-se com eles, e não com o poder estabelecido e repressor. Sua vontade é o estabelecimento do direito e da justiça no mundo, e não o simples desenvolvimento do culto. Cristo, o seu enviado, compreendido na perspectiva da prática de Jesus de Nazaré, é o libertador dos pobres porque instaura o reino de Deus, o governo de Deus, segundo os mesmos princípios do direito e da justiça.”

É um truque conhecido da teologia da libertação a confusão proposital entre o pobre e o pecador. Para essa “teologia” Jesus veio nos salvar da pobreza e não nos redimir do pecado. Ela faz isso para conseguir a impossível mistura do cristianismo com o marxismo. Além disso, a idéia de que Jesus, com sua vinda, instaura o reino de Deus neste mundo é, no mínimo, panteísmo. É claro que o reino de Deus não é deste mundo e é claro que ele não é para todos. No evangelho de João, no capítulo 3, vemos nos versículos de 3 a 5: "Jesus replicou-lhe: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus. Nicodemos perguntou-lhe: Como pode um homem renascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer pela segunda vez? Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus. "

Parece que Pe. Manzatto ou não leu ou já se esqueceu do capítulo 3 do livro do Gênesis. Toda a utopia do paraíso terrestre é desfeita por Deus. Disse Deus a Adão: “Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar.”

Somos seres caídos e nossa Queda tem uma espantosa conseqüência prática. Tudo que fizermos por aqui será imperfeito e muitíssimo difícil. Padre, espero que o sr. não considere isso somente uma metáfora.

“A Igreja, por sua vez, continuadora da missão de Jesus, assumindo a opção preferencial pelos pobres, trabalha para o estabelecimento da comunhão entre todos os seres humanos e deles com Deus, formando o ambiente comunitário que é sinal do reino em que todos são irmãos, restaurados na dignidade humana de filhos e filhas de Deus.”
Algumas verdades e uma mentira. Nem todos serão filhos de Deus. Esse é o velho erro, tantas vezes denunciado, de entender que o sangue de Cristo foi derramado pela salvação de todos e não de muitos (pro multis). [QUI POR VOBIS ET PRO MULTIS EFFUNDETUR IN REMISSONEM PECCATORUM]. Aliás, o papa já mandou se traduzir “pro multis” como “por muitos” na Oração Eucarística (ler aqui)

“A vida concreta das pessoas – incluindo aquilo que diz respeito à organização do mundo – é vista como caminho para Deus. A luta contra o mal passa, por um lado, pela solidariedade para com os sofredores e, por outro, pela superação do pecado, que não é apenas individual, mas também estrutural. Por isso a conversão do coração não é suficiente para o estabelecimento do mundo novo, mas é necessário igualmente a conversão das estruturas sociais. A luta pela justiça – também em seus desdobramentos políticos – é compreendida como compromisso de superação do pecado para a instauração do mundo novo: a sociedade fraterna e solidária será sinal do reino definitivo.”
Aqui o texto chega ao seu final, desnudando todo o blá-blá-blá inicial. Esses “teólogos” de meia tigela querem mesmo é tomar o poder temporal. Conversão de estruturas? Pecado institucional? Será esta a tal Igreja santa e pecadora? Esses teólogos da libertação são todos marxistas enrustidos e maliciosos. Reino definitivo? Aqui, na terra? Reino imanente de Deus? Só se entendermos a Queda do Paraíso como metáfora sem conseqüências práticas.

Essa baboseira está longe da Tradição Católica e é por isso que esses lobos estão uivando contra Bento XVI. Vade retro satanás!

Para terminar, nada como citar o Papa Bento XVI, que na Encíclica SPE SALVI, recentemente publicada, que explica direitinho, para quem quiser entender, como o cristianismo muda o mundo, em sentido autêntico (as ênfases são minhas).

O cristianismo não tinha trazido uma mensagem sócio-revolucionária semelhante à de Espártaco que tinha fracassado após lutas cruentas. Jesus não era Espártaco, não era um guerreiro em luta por uma libertação política, como Barrabás ou Bar-Kochba. Aquilo que Jesus – Ele mesmo morto na cruz – tinha trazido era algo de totalmente distinto: o encontro com o Senhor de todos os senhores, o encontro com o Deus vivo e, deste modo, o encontro com uma esperança que era mais forte do que os sofrimentos da escravatura e, por isso mesmo, transformava a partir de dentro a vida e o mundo. A novidade do que tinha acontecido revela-se, com a máxima evidência, na Carta de São Paulo a Filémon. Trata-se de uma carta, muito pessoal, que Paulo escreve no cárcere e entrega ao escravo fugitivo Onésimo para o seu patrão – precisamente Filémon. É verdade, Paulo envia de novo o escravo para o seu patrão, de quem tinha fugido, e fá-lo não impondo, mas suplicando: « Venho pedir-te por Onésimo, meu filho, que gerei na prisão [...]. De novo to enviei e tu torna a recebê-lo, como às minhas entranhas [...]. Talvez ele se tenha apartado de ti por algum tempo, para que tu o recobrasses para sempre, não já como escravo, mas, em vez de escravo, como irmão muito amado » (Flm 10-16). Os homens que, segundo o próprio estado civil, se relacionam entre si como patrões e escravos, quando se tornaram membros da única Igreja passaram as ser entre si irmãos e irmãs – assim se tratavam os cristãos mutuamente. Em virtude do Baptismo, tinham sido regenerados, tinham bebido do mesmo Espírito e recebiam conjuntamente, um ao lado do outro, o Corpo do Senhor. Apesar de as estruturas externas permanecerem as mesmas, isto transformava a sociedade a partir de dentro. Se a Carta aos Hebreus diz que os cristãos não têm aqui neste mundo uma morada permanente, mas procuram a futura (cf. Heb 11, 13-14; Fil 3,20), isto não significa de modo algum adiar para uma perspectiva futura: a sociedade presente é reconhecida pelos cristãos como uma sociedade imprópria; eles pertencem a uma sociedade nova, rumo à qual caminham e que, na sua peregrinação, é antecipada.

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[1] Uso aqui a tradução da Suma publicada pelas Edições Loyola, vol. 1, 2001.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

HORROR AOS ERROS DOUTRINÁRIOS (PADRE FABER)

Nota do blogue: Grande e misteriosa e talvez última é esta crise que há quase 50 anos assola a Igreja de Cristo Nosso Senhor! Para honrar a Santa Sé - portanto, a Igreja Romana -, D. Lefebvre e D. Mayer tiveram que resistir ao seu ocupante, que, por um insondável mistério de iniquidade, amou tanto os homens, o Homem, que o amou sobre todas as coisas... e lhe cultuou! Que Deus se apiede de nós e Sua Mãe venha em nosso auxílio!

HORROR AOS ERROS DOUTRINÁRIOS
(PADRE FABER)


 
"(...) Emprego de propósito esta palavra, susceptibilidade, porque exprime perfeitamente o meu pensamento, e não conheço outro termo que tão bem o possa exprimir.

Todos sabemos o que é ser susceptível quando se trata dos nossos próprios interesses, ou dos interesses daqueles que nos estão ligados pelos laços do sangue ou da amizade.

Tomamos calor à menor suspeita; estamos sempre de sobreaviso, como se notássemos em todos aqueles com quem tratamos o intuito de nos prejudicarem. Estamos sempre prontos a queixar-nos, e às vezes até, se nos descuidamos, julgamos mal dos outros, ou nos encolerizamos e dizemos inconveniências.

Aplicai agora este modo de proceder aos interesses de Jesus, e tereis uma idéia bastante aproximada do que é um Santo.

Mas não é raro encontrar pessoas piedosas que não compreendem este procedimento e o censuram como extravagante e indiscreto; mas falam assim porque não sabem o que é servir a Deus por amor.

Quem tem semelhante susceptibilidade a respeito dos interesses de Jesus, se chega ao seu conhecimento algum escândalo, aflige-se com isso profundamente. Pensa nele a toda hora e dele fala com amargura, e enquanto durar o escândalo, não achará prazer em coisa alguma. Os seus amigos não podem conceber a importância que liga ao caso, nem a dor que com isto experimenta, e dizem: 'este negócio não lhe diz respeito nem lhe traz prejuízo algum'. E sentem-se inclinados a chamar-lhe tolo ou hipócrita, pois não vêem o amor com que se abrasa por Jesus, e o vivo pesar que lhe causa o ver os interesses do seu amadíssimo Jesus assim comprometidos. Esses homens indignar-se-iam durante um mês das vexações causadas por um processo injusto: mas que é isto em comparação do menor ataque aos interesses de Jesus? Certamente, um homem não convencido desta verdade, mal merece o nome de cristão.

Um outro característico desta admirável susceptibilidade pelos interesses de Jesus, é um horror instintivo à heresia e a todas as falsas doutrinas, e um olfato especial para as descobrir. A integridade da Fé constitui um dos mais caros interesses de Jesus; assim, um coração penetrado dum amor sincero pelo seu Senhor e seu Deus sofre indizivelmente quando ouve expor doutrinas falsas, principalmente entre católicos. Idéias errôneas acerca da pessoa de Jesus Cristo, desprezo pela Sua graça, o mais ligeiro ataque à honra de Sua Santa Mãe, a depreciação dos Sacramentos, opinião desfavorável às prerrogativas do Seu Vigário na terra, - cada uma destas coisas, expressa com mais ou menos leviandade numa conversação ordinária, fere-o a ponto de chegar mesmo a sentir uma dor física.

Pessoas sem reflexão talvez se escandalizem com isto que acabo de dizer, mas se alguém ousasse atacar diante delas a honra e a castidade de suas mães ou de suas irmãs, não haveria violência, ainda que fosse a efusão do sangue, à qual não se julgassem no direito de recorrer. E que é a honra de uma mãe em comparação da dignidade de Jesus? E que vale a reputação duma irmã, comparada com o menor título da Bem-Aventurada Virgem Maria? Não há mil vezes mais amor por mim no pai comum dos fiéis, sucessor de S. Pedro, que no coração de todos os meus parentes juntos?

Não sou obrigado em consciência a selar com o meu sangue a minha fé na virtude de minha mãe; mas seria um miserável se hesitasse em sacrificar a minha vida pela honra da Santa Sé. Não encontrareis um único Santo que não haja sido extremamente susceptível neste ponto, e que tenha podido ouvir, sem sofrer amargamente, a voz da heresia e das falsas doutrinas. E quando não existe este piedoso horror, então é tão certo como o sol brilhar nos céus, que o amor por Jesus é fraco e apagado no coração do homem.

Esta susceptibilidade pode manifestar-se, segundo as circunstâncias, a respeito de todos os interesses de Jesus que mencionamos no primeiro capítulo [a glória de Seu Pai, o fruto de Sua Paixão, a honra de Sua Mãe e a estimação da Sua graça].

Mas devemos notar uma coisa. Pode às vezes suceder que um indivíduo, que ame ardentemente a Nosso Senhor, mas desde pouco tempo, ultrapasse os limites da conveniência, tornando-se em seu zelo indiscreto, impaciente, brusco ou mordaz; terá suspeitas quando não haja o mais leve motivo para elas, e não sofrerá a indolência ou a frieza dos outros, como as sofreria se houvesse tido mais longa prática do amor de Deus. Isto lança muitas vezes a desconsideração sobre a virtude, pois ninguém é julgado com menos indulgência do que aqueles que fazem profissão de seguir a vida devota. Não negamos que tenha defeitos e imperfeições, estando nos primeiros degraus da vida espiritual; mas deve consolá-lo o pensamento de que muitas vezes, ao passo que é vituperado pelos homens, Jesus não o condena. Direi até que as imperfeições do seu amor nascente Lhe são agradáveis, enquanto que aborrece as 'sábias críticas' e a enfática moderação dos seus censores."

(Padre Frederick William FABER [1814-1863] in: TUDO POR JESUS ou CAMINHOS FÁCEIS DO AMOR DIVINO, Rio de Janeiro: s.d., Garnier-Livreiro Editor, p. 51-54, grifos nossos).
 
 

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Vigésimo primeiro domingo depois de pentecostes.

O servo desumano e o perdão das injúrias

Sic et Pater meus coelestis faciet vobis, si non remiseritis unusquisque fratri suo de cordibus vestris – “Assim vos tratará meu Pai celestial, se do íntimo dos vossos corações não perdoardes cada um a seu irmão” (Mat. 18, 35).

Sumário. O servo descaridoso, a quem o dono perdoou muito e não quis apiedar-se do companheiro que lhe devia pouco, é uma imagem viva daqueles cristãos que não querem perdoar a seu inimigo. Meus irmão, não te creio culpado de tamanho delito; mas considera bem, não sejas do número dos que julgam com severidade os defeitos dos outros e exigem tolerância para os defeitos próprios e talvez maiores. Sendo assim, não tardes em emendar-te; senão, serás julgado com o mesmo rigor e condenado pelo Pai celestial.

I. No evangelho de hoje, Jesus Cristo compara o reino dos céus a um rei que quis tomar contas aos seus servos. E, “tendo começado a tomar as contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos. Como não tivesse com que pagar, mandou o seu senhor que o vendessem a ele e a sua mulher e a seus filhos, e tudo quanto possuí,a para com isto ser pago. O servo, porém, lançando-se-lhe aos pés, o implorava dizendo: Tem paciência comigo, que eu te pagarei tudo. Compadecido então desse servo, o senhor deixou-o em liberdade, e lhe perdoou sua dívida. – Mas tendo saído este servo, encontrou-se com um de seus companheiros que lhe devia cem dinheiros; e, pondo-lhe as mãos, sufocava-o dizendo: Paga-me o que deves. E o companheiro, prostrando-se-lhe aos pés, lhe implorava, dizendo: Tem paciência comigo, que te pagarei tudo. Mas ele não quis; e fez metê-lo em prisão até pagar a dívida: Misit eum in carcerem, done redderet debitum.

Meu irmão, ao ouvir tamanha crueldade, talvez nunca sucedida, sem dúvida te sentes comovido. Quantos há, porém, que se comovem com a parábola e tropeçam na realidade! – Com efeito, Jesus Cristo (figurado pelo rei) mostra-se no tribunal da penitência tão misericordioso para com os cristãos, que basta um ato de contrição para lhes serem perdoadas todas as culpas, representadas pelo débito enorme de dez mil talentos. Ao contrário, os cristãos, (figurados pelo servo descaridoso) são tão exigentes, que, apesar do preceito de Deus, se recusam a perdoar ao próximo as ofensas recebidas, simbolizadas na pequena quantia de cem dinheiros.

Não te quero julgar réu de tamanha desumanidade. Examina, porém, se não és porventura do número daqueles que, deixando-se dominar pela ira, querem que para com eles se use de paciência, sem que eles a tenham de praticar para com os outros; isto é, julgam com rigor os pequenos defeitos dos outros, e exigem condescendência a respeito dos próprios defeitos que são muito maiores.

II. Coisa assombrosa! Diz o Eclesiástico: O homem, um bicho da terra guarda rancor e quer vingar-se de um seu irmão; e depois atreve-se a implorar a misericórdia de Deus. Quem poderá interceder para obter o perdão dos pecados desse temerário: Quis exorabit pro delictis illius? (1) Talvez haverá muitos que rogarão ao Senhor julgue sem misericórdia a quem foi imesiricordioso (2). – É o que parece insinuar Jesus Cristo, quando, continuando a parábola do servo impiedoso, acrescenta: “Os outros servos, porém, seus companheiros, vendo o que se passava, sentiram-no fortemente, e foram dar parte a seu senhor de tudo o que tinha acontecido. Então seu senhor o chamou, e lhe disse: Servo mau, toda a dívida te perdoei, porque me rogaste. Pois, não devias também compadecer-te do teu companheiro, como eu me compadeci de ti? Indignado, entregou-o o seu senhor aos verdugos, até pagar tudo que devia. Assim vos tratará meu Pai celestial, se do íntimo dos vossos corações não perdoardes cada um a seu irmão.”

Ó Jesus, meu divino Redentor, visto que por palavras e por exemplos me ensinastes a amar os seus inimigos, a fazer bem aos que me odeiam, a rogar aos que me perseguem e caluniam (3): eis que agora, prostrado na vossa presença, resolvo seguir sempre, e em todas as coisas, esses ensinos santíssimos. Sim, meu Jesus, por amor de Vós perdôo a quem me haja ofendido, e peço-Vos que também lhe perdoeis. Dai-lhe prosperidade nas empresas, aumentai-lhe as riquezas, cumpri-lhe os desejos, e sobretudo inspirai-lhe no coração sentimentos de caridade e de paz, afim de que, extinta toda discórdia, possamos unanimemente servi-Vos neste mundo e gozar de vossa presença no outro.

Perdoai-me, pois, as minhas dívidas, assim como eu perdôo aos meus devedores, e “guardai-me com piedade contínua, para que, sob a vossa proteção, fique eu livre de todas as adversidades, e, para glória de vosso nome, seja sempre fervoroso no exercício das boas obras.” + Doce coração de Maria, sede minha salvação.

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1. Ecl. 28, 5.
2. Jac. 2, 13
3. Mat. 5, 44.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 188-191.)